Uma falha redonda no cabelo, lisinha, que apareceu de uma hora para outra — às vezes na barba ou na sobrancelha — costuma ser alopecia areata, a popular "pelada". É uma doença autoimune: o próprio sistema de defesa ataca a raiz do fio, mas sem destruí-la. Por isso o cabelo pode voltar, sozinho ou com tratamento. O tratamento da alopecia areata depende da gravidade: vai de corticoide aplicado na placa até os remédios orais mais novos, os inibidores de JAK, aprovados pela Anvisa para a forma grave. A seguir, causas, diagnóstico, opções e prognóstico — sem promessas.
O que é alopecia areata
Alopecia areata é uma doença autoimune em que células de defesa atacam o folículo piloso na fase de crescimento, fazendo o fio cair em áreas bem delimitadas — sem cicatriz e sem destruir a raiz. Ela atinge cerca de 2% da população em algum momento da vida, em qualquer idade, sexo ou tipo de cabelo, segundo revisão publicada na Nature Reviews Disease Primers (Pratt e colaboradores, 2017).
Ela aparece de formas diferentes:
- Em placas (a mais comum): uma ou mais falhas redondas ou ovais, de pele lisa, no couro cabeludo;
- Na barba e na sobrancelha: a alopecia areata na barba é frequente em homens e aparece como "buracos" redondos nos pelos do rosto; cílios também podem ser atingidos;
- Ofiásica: perda em faixa na nuca e acima das orelhas, contornando a cabeça;
- Total: perda de todo o cabelo do couro cabeludo;
- Universal: perda dos pelos de todo o corpo;
- Difusa: rarefação espalhada, que pode ser confundida com outras quedas.
Pequenas depressões nas unhas podem acompanhar o quadro, e a pele da placa costuma ser normal.
Alopecia areata: causas e fatores associados
A causa da alopecia areata é autoimune e tem forte componente genético: o folículo perde a "proteção imunológica" que normalmente o esconde do sistema de defesa e passa a ser atacado por linfócitos. É uma doença poligênica, e ter familiares com ela aumenta a chance.
Ela também aparece junto com outras condições. Uma revisão sistemática com meta-análise de 87 estudos (Lee e colaboradores, Journal of the American Academy of Dermatology, 2019) encontrou, em quem tem alopecia areata, maior frequência de:
- Doenças da tireoide, incluindo as autoimunes (como a tireoidite de Hashimoto);
- Doenças atópicas: rinite, asma e dermatite atópica;
- Outras doenças autoimunes, como o lúpus e o vitiligo;
- Deficiência de vitamina D e anemia por falta de ferro;
- Ansiedade e depressão.
Por isso a avaliação costuma incluir exames de tireoide e, conforme o caso, outros exames de sangue. E o estresse? Muitos pacientes relatam um período difícil antes da primeira placa, mas o estresse é considerado, no máximo, um possível gatilho em quem já tem predisposição — não a causa. Ninguém "pega" alopecia areata: ela não é contagiosa.
Falha no cabelo redonda: como é feito o diagnóstico
O diagnóstico da alopecia areata é clínico, feito no consultório pelo exame do couro cabeludo e pela tricoscopia — a dermatoscopia do cabelo, uma lente de aumento com luz que mostra detalhes invisíveis a olho nu.
Na tricoscopia, os achados mais típicos são os pontos amarelos (aberturas foliculares vazias), pontos pretos (fios quebrados rente à pele), fios em ponto de exclamação (mais grossos na ponta e afinados na base), fios quebrados e pelos finos de recrescimento. Uma revisão sistemática (Waśkiel e colaboradores, Journal of Dermatology, 2018) lembra que nenhum desses sinais, sozinho, fecha o diagnóstico: o que conta é a combinação. A biópsia raramente é necessária e fica para casos duvidosos.
Nem toda falha redonda é alopecia areata
Outras condições podem lembrar uma "pelada" e precisam ser afastadas:
- Tinea capitis (micose do couro cabeludo): mais comum em crianças, com descamação ou vermelhidão;
- Tricotilomania: o hábito de arrancar os fios, que deixa fios de tamanhos diferentes;
- Alopecia de tração: perda nas bordas por penteados presos e apertados;
- Sífilis secundária: pequenas falhas espalhadas, com aspecto "roído de traça" — incomum, mas, havendo suspeita, um exame de sangue esclarece;
- Alopecias cicatriciais (como o lúpus discoide): a perda tende a ser definitiva, por isso o diagnóstico precoce importa.
Queda espalhada pela cabeça toda, depois de febre, cirurgia, parto ou emagrecimento rápido, costuma ser outra coisa: o eflúvio telógeno, a queda de cabelo repentina.
Alopecia areata: tratamento conforme a gravidade
O tratamento da alopecia areata é escolhido pela extensão da perda, pelo tempo de doença, pela idade e pelas outras condições de saúde do paciente. A referência no Brasil é o II Consenso da Sociedade Brasileira de Dermatologia para o tratamento da alopecia areata (Müller Ramos e colaboradores, Anais Brasileiros de Dermatologia, 2025). O objetivo é induzir o recrescimento e controlar a atividade da doença — o que nenhum tratamento faz é garantir que ela não volte.
Casos leves: poucas placas
Para placas localizadas em adultos, o consenso brasileiro considera a infiltração de corticoide na placa (injeção intralesional, feita no consultório e repetida em intervalos de semanas) a primeira opção. Corticoides tópicos potentes são alternativa, principalmente em crianças e em quem não tolera injeções. Em placas pequenas e recentes, observar também é uma conduta possível, já que parte delas recupera sozinha.
Casos moderados: placas múltiplas ou que voltam
Quando as placas se multiplicam ou recidivam, combinam-se tratamentos locais e, em casos selecionados, ciclos curtos de corticoide oral. A imunoterapia de contato (difenciprona), que provoca uma reação controlada na pele para "desviar" o ataque imune, é alternativa para casos extensos e estáveis.
Casos extensos e graves: imunossupressores e inibidores de JAK
Na forma grave — em geral, 50% ou mais do couro cabeludo, alopecia total ou universal —, o consenso brasileiro aponta os inibidores de JAK como o tratamento com o maior nível de evidência. Corticoide sistêmico e imunossupressores, como o metotrexato, seguem como opções.
Os inibidores de JAK são comprimidos que bloqueiam sinais inflamatórios usados pelos linfócitos para atacar o folículo. Dois deles têm estudos de fase 3 e aprovação da Anvisa para alopecia areata:
- Baricitinibe (Olumiant®, Eli Lilly): aprovado pela Anvisa em 2023 para adultos com alopecia areata grave. Nos ensaios BRAVE-AA1 e BRAVE-AA2 (King e colaboradores, New England Journal of Medicine, 2022), com 1.200 adultos que tinham perdido 50% ou mais do couro cabeludo, 38,8% e 35,9% dos pacientes na dose mais alta chegaram a 80% ou mais do couro cabeludo coberto em 36 semanas, contra 6,2% e 3,3% com placebo.
- Ritlecitinibe (Litfulo®, Pfizer): registrado pela Anvisa em fevereiro de 2024 para alopecia areata grave em adultos e adolescentes a partir de 12 anos. No estudo ALLEGRO (King e colaboradores, The Lancet, 2023), com 718 pacientes, 23% chegaram a 80% ou mais do couro cabeludo coberto em 24 semanas no esquema que depois foi aprovado, contra 2% com placebo.
Ou seja: funcionam para uma parte dos pacientes, não para todos, e levam meses. Exigem exames antes e durante o uso — hemograma, colesterol, fígado, triagem de infecções como tuberculose e hepatites. Nos estudos do baricitinibe, acne e aumento do colesterol e da enzima CK foram mais comuns do que com placebo. São remédios de alto custo, e o uso deve ser avaliado e acompanhado por médico.
O cabelo volta? Prognóstico honesto
O cabelo pode voltar porque o folículo não é destruído — mas a evolução é imprevisível, e quanto mais extensa a doença, pior o prognóstico. Muitas placas pequenas se recuperam espontaneamente em meses; recidivas, porém, são comuns ao longo da vida.
Um estudo italiano acompanhou 191 pacientes por 15 a 22 anos (Tosti e colaboradores, Journal of the American Academy of Dermatology, 2006). Entre quem começou com menos de 25% do couro cabeludo afetado, 68,3% estavam sem a doença no fim do seguimento. Entre os casos mais graves no início e na alopecia total, só cerca de 7% a 9% estavam livres. Em crianças, a tendência foi de evolução pior.
"Na alopecia areata, a pergunta certa não é 'tem cura?', e sim 'como controlo a doença e o que faço se ela voltar?'."
O impacto emocional também faz parte do tratamento
A alopecia areata afeta a autoestima e está associada a mais ansiedade e depressão — e isso merece cuidado tanto quanto o cabelo. A perda é súbita e imprevisível, o que pesa principalmente em adolescentes e em quem perde sobrancelhas e cílios. Apoio psicológico, grupos de pacientes e soluções estéticas temporárias (próteses capilares, maquiagem de sobrancelha, barba mais curta) são parte legítima do plano — e entender o que está acontecendo já reduz a ansiedade.
Transplante capilar não é tratamento da alopecia areata ativa
O transplante capilar — ou implante capilar, que é o mesmo procedimento — não trata a alopecia areata ativa, e na maioria dos casos não é indicado. Há três motivos:
- A doença ataca os fios onde quer que estejam. Na calvície comum, os fios da nuca são resistentes ao hormônio que afina o cabelo e mantêm essa resistência no lugar novo. Na alopecia areata, o ataque é imune — e os fios transplantados podem ser atacados também;
- A área doadora pode ser atingida. A nuca é justamente o local da forma ofiásica, e não há como garantir que a doença não chegue lá;
- O cabelo pode voltar sozinho. Diferente da calvície, o folículo continua vivo: operar uma área que pode recuperar não faz sentido.
Na literatura há relatos isolados de transplante em situações muito específicas — por exemplo, uma placa antiga que permanece inalterada há anos, com a doença sem nenhuma atividade em outros locais. É exceção, decidida caso a caso, e não tratamento. O mesmo vale para o transplante de barba e o transplante de sobrancelha: em falhas causadas por alopecia areata, o primeiro passo é tratar a doença. Veja também quem não pode fazer transplante capilar. Para a calvície androgenética, em que o transplante é indicado, a sobrevivência dos enxertos passa de 90% em candidatos bem selecionados, segundo a ISHRS — as técnicas estão em FUE, FUE No Shave e DHI.
Alopecia areata tem cura?
Não existe hoje um tratamento que elimine definitivamente a alopecia areata; existe controle, e muitos pacientes entram em remissão — períodos sem atividade da doença, com o cabelo de volta. Em casos leves, a remissão espontânea é comum. Nos casos graves, os inibidores de JAK mudaram o cenário, mas controlam a doença enquanto são usados: na fase de retirada do estudo BRAVE-AA1 (King e colaboradores, JAMA Dermatology, 2024), 80% dos pacientes que trocaram o remédio por placebo perderam o benefício ao longo de cerca de dois anos, contra 7% dos que continuaram. A boa notícia: a maioria dos que voltaram a tomar recuperou a resposta.
Por isso o tratamento é pensado como o de outras doenças autoimunes crônicas: acompanhamento, ajuste ao longo do tempo e atenção à saúde como um todo — a mesma lógica de olhar para além do cabelo que aparece em calvície e saúde metabólica.
Alopecia areata: avaliação em Criciúma e região
No consultório do Dr. João Francisco Oliveira (CRM 33346/SC), no bairro Comerciário, em Criciúma, a avaliação de uma falha no cabelo, na barba ou na sobrancelha começa pela tricoscopia, para confirmar se é alopecia areata ou outra causa, e segue com a revisão de exames — tireoide, vitamina D, ferro e outros conforme o caso. Casos extensos ou com outra doença autoimune associada são acompanhados em conjunto com o dermatologista, o endocrinologista ou o reumatologista. As opções clínicas estão reunidas em tratamento capilar em Criciúma.
Pacientes de Içara, Forquilhinha, Nova Veneza, Urussanga, Tubarão, Araranguá e Sombrio chegam em menos de uma hora e meia, e quem vem do extremo sul catarinense e do litoral norte gaúcho — Passo de Torres, Torres, Arroio do Sal — faz o trajeto pela BR-101. Exames feitos perto de casa podem ser enviados antes pelo WhatsApp; veja transplante capilar no Sul de Santa Catarina. Se você notou uma falha redonda, fale com o Dr. João Francisco pelo WhatsApp para agendar a avaliação.
Referências (PubMed): 28300084 (Pratt et al., revisão, Nat Rev Dis Primers 2017) · 30031145 (Lee et al., revisão sistemática e meta-análise de comorbidades, J Am Acad Dermatol 2019) · 29569271 (Waśkiel et al., revisão sistemática de tricoscopia, J Dermatol 2018) · 39638736 (Müller Ramos et al., II Consenso da Sociedade Brasileira de Dermatologia, An Bras Dermatol 2025) · 35334197 (King et al., BRAVE-AA1 e BRAVE-AA2, N Engl J Med 2022) · 39141364 (King et al., retirada do baricitinibe no BRAVE-AA1, JAMA Dermatol 2024) · 37062298 (King et al., ALLEGRO, Lancet 2023) · 16908349 (Tosti et al., seguimento de longo prazo, J Am Acad Dermatol 2006). Registro na Anvisa: ritlecitinibe (Litfulo®) — novo registro publicado no DOU em 27/02/2024, página da Anvisa "Novos medicamentos e indicações"; baricitinibe (Olumiant®) — aprovação para alopecia areata grave em adultos noticiada pelo Conselho Federal de Farmácia em 10/11/2023.
Perguntas frequentes
Alopecia areata tem cura?
Não existe hoje um tratamento que elimine a alopecia areata de vez, mas ela tem controle, e muitos pacientes entram em remissão, com o cabelo de volta. Em casos leves, a melhora espontânea é comum; em casos graves, os inibidores de JAK funcionam enquanto são usados, e a maioria dos pacientes que suspendeu o remédio nos estudos perdeu o benefício. Recidivas podem acontecer ao longo da vida, por isso o acompanhamento médico é contínuo.
O que causa a alopecia areata? É estresse?
A alopecia areata é uma doença autoimune com forte componente genético: células de defesa atacam a raiz do fio na fase de crescimento. O estresse pode ser um gatilho em quem já tem predisposição, mas não é considerado a causa. A doença é mais frequente em quem tem doenças da tireoide, alergias como rinite e asma, ou outras doenças autoimunes, e não é contagiosa.
Falha no cabelo redonda é sempre alopecia areata?
Não. A alopecia areata é a causa mais comum de uma falha redonda e lisa que aparece de repente, mas micose do couro cabeludo, tricotilomania (o hábito de arrancar os fios), alopecia de tração, sífilis secundária e alopecias cicatriciais podem parecer semelhantes. O diagnóstico é feito no consultório com exame clínico e tricoscopia, e às vezes exames de sangue.
O cabelo volta a crescer na alopecia areata?
Pode voltar, porque o folículo não é destruído. Placas pequenas e recentes muitas vezes se recuperam em meses, sozinhas ou com tratamento. Quanto mais extensa a doença, menor a chance de recuperação completa: num estudo que acompanhou pacientes por 15 a 22 anos, 68,3% dos casos leves estavam sem a doença, contra cerca de 9% dos casos de alopecia total.
Baricitinibe e ritlecitinibe são aprovados no Brasil para alopecia areata?
Sim. O baricitinibe foi aprovado pela Anvisa em 2023 para adultos com alopecia areata grave, e o ritlecitinibe teve registro publicado em fevereiro de 2024 para alopecia areata grave em adultos e adolescentes a partir de 12 anos. São remédios orais que exigem exames antes e durante o uso; a indicação e o acompanhamento devem ser feitos por médico.
Alopecia areata na barba tem tratamento?
Sim. A alopecia areata na barba segue a mesma lógica do couro cabeludo: em falhas localizadas, o tratamento mais usado é o corticoide aplicado na placa, no consultório; em casos extensos, avaliam-se tratamentos sistêmicos. Muitas falhas na barba se recuperam, mas podem reaparecer. O transplante de barba não é indicado enquanto a doença estiver ativa.
Quem tem alopecia areata pode fazer transplante capilar?
Na maioria dos casos, não. Na alopecia areata o ataque é imune, e os fios transplantados e a própria área doadora podem ser atingidos; além disso, o cabelo pode voltar sozinho. O transplante só é discutido em situações muito específicas, como uma placa antiga e inalterada há anos, com a doença sem atividade, sempre após avaliação individual.